sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

tatuagem de uma cicatriz




Porque não escrevo?

Porque obedeço ao tempo
de um caminho
de cicatrização.


De um golpe
uma dor e uma chaga
de sofrimento.


Lambo e ponho o dedo. Na ferida

uma compressa. Que sangra

de dor.


A crosta é a côdea que encordoa a fenda.

A massagem é a carícia que adoça a pele

que formiga e abrasa.


Eterna cicatriz.

Tatuagem de ti.


mateo
"Brown Dog with Red Scar de Catherine Becquer.

quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

naufrágil




entre muralhas
flutuo

entre destroços
abraço

tábuas em pedaços

de vaga em vaga
dou à praia
com tudo

e a vida


mateo

"El naufragio II" de Rafael Trelles.

terça-feira, 15 de Setembro de 2009

um cavalo para helena




Por onde andei?
Pelas marés.

Dormi em dunas. Nas noites de suor.
Acordei.
Pelo alvor. Molhado. Das brumas. Lavei a cara
de sono.
Com água salgada e fria. Comemos
carapaus e lulas. Muito frescos. Grelhados.


Namorei-te no bar da praia. Confundi o azul
do teu olhar.
Com o do mar. Despi-te o sari
dum sonho. Sempre atraído.
Pelos abismos.
Os do mar infindo. Os dos teus seios.
Dois
beijos salgados e as nossas mãos caladas.


Faltou-me o cavalo. Em Tróia, Helena!

Não o da guerra. Um. Vindo da serra.


Mateo
"The blue horse" de Franz Marc.

quinta-feira, 16 de Julho de 2009

manhã sem pudor


Um banho

hirto o silicone em celulite mole. plásticos verdes sob bandeira azul.
sedentos ensopados num mar areado. uma mini e um pastel de nata.

de palavras

Por favor! Com licença!
Perdão! Obrigado!
Importa-se?
De nada!
Não!

e de nudez.

Não foi o teu corpo desprotegido
que me despertou do torpor.
Só a tua língua molhada,
errando entre lábios secos,
me humedeceu de intimidade.

Mateo

"Lips" - Avia Terry.

quarta-feira, 8 de Julho de 2009

rastos de um rosto



Rugas.

Regos. De pele arada.
Rasgos. De pés de galinha.
Restos. De um tempo com barbas.

Nada.
Que um dedo não insinue.
Com que um olhar não brinque.
Que umas lentes não desfoquem.

Rugas impressivas.
Fruto de um sorriso
de vagabundo.


Mateo
Fotografia de Ivo Mendes.

quarta-feira, 1 de Julho de 2009

miolo de pão




De ti nem uma migalhinha desperdiço.
Nada. Nem disso...

Se for saboroso... óptimo!
Se for perigoso... pode não matar!
Se for mortal... só se morre uma vez!


Mateo

"Harmony" (fragmento) de Thimothy Stotz.

quinta-feira, 25 de Junho de 2009

outro laço para nós



enlaço-te pela cintura

debruça-te pelo braço

costura-nos as pontas
dos nós sob o cansaço

Mateo

"Kiss" de Rodin.

terça-feira, 16 de Junho de 2009

do instinto


Por fim e em desespero, perdi a cabeça

cego e surdo destruí
o sabor e o cheiro

e degolado
restou-me o instinto do tacto

puro estímulo da espinal medula


e encontrei-te em gula libertina.

Mateo

"Human instincts" de Diana Ong.

quarta-feira, 10 de Junho de 2009

esconjuro-me







O meu braço. O direito. Sobre os teus ombros.
A minha mão. A direita. Argila sobre o peito.
Os meus dedos. Na pele macia do teu seio.

Uma marcha. Esquerdo-direito. Só dois.

Para que a minha boca soasse a búzio.
Para que o teu ouvido fosse concha.
Algas num útero. Cheias de medo.
Uma lapa feita rocha. O segredo.
Vagas estalam sobre o rochedo.

Não te amo.
Não amo a mulher que és.

Renunciei-me. A mim próprio.
Amo uma imagem. De ti fiz
uma lápide lapidada.
The hope diamond.

Investi a fundo perdido.

Mateo

quarta-feira, 3 de Junho de 2009

paleta de sabores


Que vontade me rói de te beber as cores e
saborear-te o verde do branco e o roxo.

Cores de vinho
tinto de Torres. Verde do Minho.
Branco de dores.

Licores de um bêbado
ao sugar-te o sabor castanho da pele
entre o vermelho dos lençóis sob o teu olhar tão negro.

Sinto-me tonto. Tombo no turbilhão dum redemoinho.
Sinto-me fruto. Sacode-me na árvore para que tombe.
De maduro.

Mateo
"Paleta" de Artur Bual.

terça-feira, 26 de Maio de 2009

esboço



na simulação da morte em vida

na tela de pele do abdómen
e na paleta de cambraia
remaste um eme

de maria
de onda
de mar

a sémen

Mateo
"The Climax" de Aubrey Beardsley.

segunda-feira, 18 de Maio de 2009

imperativo




provoca-me antes e convoca-me depois


Evoca-me a tua nudez.
Impõe-me decote cavado no vale e saia de aragens.
Nada. Mais. Nada.



Ensopei-me de leite morno.


Açula-me os cães!
Que me curem a ferida ou me matem de raiva!




Mateo

"Reine" de Sylvain Fusco.

quarta-feira, 13 de Maio de 2009

o amor à beira do abismo


Chega-te a mim. E ajuda-me.

Tento, sempre, abrigar-me sob certezas. Certíssimas.
Mas o que paira por mim continuamente é a incerteza.
Questões. Dúvidas. Ponto de interrogação. Reticências.

Que não sou só eu. Somos todos. Que é útil. E faz bem.

Pois. Será. É. Olha que já não sei.
Mas o que eu busco constantemente é a segurança.

Não me entendes?
Vou procurar ser mais claro. Talvez com um exemplo.

Dia a dia, garantes que me amas. E mais.
Vou acreditando. Voa o negro da nuvem.
Desfazes-me as dúvidas. Uma após outra.
E a certeza impõe-se-me. Brilha só o azul.

Se não é bom?
Será. É. Olha que já nem sei.

Dissipam-se-me os receios. E a tensão.
Desamparam-me as fantasias. E o desejo.

Como se a posse do teu amor me amputasse dos sonhos.
Como se a posse da realidade me secasse a fome. A sede.
Como se a paixão desmaiasse no amarelecer dos desejos.
Como se a certeza de te amar fosse uma paz a apodrecer.

Ajuda-me. Chega-te mais a mim. Quero a
certeza do amor. E a inquietude da paixão.
Que o desejo seja. Eterno de tão terno. Jogo
de todas as cores. E não só a preto e branco.


Mateo
"I am my other half" de Margot Natrass.

terça-feira, 5 de Maio de 2009

senhora da gruta do monte




deste sopé a montanha seduz-me

convida-me a eternidade das neves

o horizonte arrasta-me para o cume


Sobe-me!

Subiria.

Com medo

das alturas e

das vertigens

dos precipícios.

Galga-me!

Galgaria.

E a neve com o vento?

E o gelo como aguilhões?

E a cegueira do nevoeiro?


Aguardo-te!

No negrume da gruta

o encantamento do luar

não será devorado pelos

raios intensos da manhã.


Penetra-me nesta noite de líquidos!


Mateo
"Moonlight Enigna" de Margot Natrass.

terça-feira, 28 de Abril de 2009

ao saltar o muro de um ninho




Sob asas agasalho-me. Num ninho e entre muitas penas.
Entre carinhos e meiguices na segurança e na harmonia.

o amor no hábito de um monge ao abrigo de deus

Com asas arrisco-me. A voar sobre telhas e entre tiros.
Salto o muro. Espeto esporas nas ilhargas da aventura.

o desejo de um dorso lusitano pelos abismos do diabo

Sem-abrigo. Vagabundo. Clochard de Alma.
Em fuga do amor para os abraços do desejo.
Em fuga do desejo para os abraços do amor.

modo de amar rasgado entre casa e uma noite fora

Mateo

quinta-feira, 23 de Abril de 2009

pudor sem vergonha



não foi na nudez consumada

ao arrancar-te a última peça
que senti a tua entrega total

dir-se-ia que
em ti
nem uma fenda se abria


como se
tivesses domado todo o poder
da mudez da tua oferenda ou
da tua dádiva à minha avidez

na languidez do teu corpo
um véu de tule
uma película fina
impedia-me o acesso
à entrada na tua intimidade

não era pejo
nem vergonha
nem falta de desejo
de gemermos de prazer

reclamavas tão somente
o poder do teu pudor

à interioridade

como se
bem dentro do teu corpo
perpetuasses um mistério

o pudor é a chave


Mateo

"Behind the veil of respectability" de Margot Natrass.

quarta-feira, 15 de Abril de 2009

amor no teu vestido transparente





Partilhemos os corpos. Corpo a corpo.
Não em luta. Mas numa dádiva mútua.
Minha e tua.
Nossa.

Quanto te desejei. No
teu vestido transparente!
Será que a transparência te despia? Ou revestia?

Opaco era o teu corpo. Vestido! Uma opacidade real.

Uma forma. Um olhar. Um beijo-a-beijo.
Tentativas de sedução. Expressão de desejos.
Nada
derretia a opressão de nos obrigarmos a ser realistas.

Foi no teu decote generoso e no rubor de um toque
que a tua transparência nos iniciou na transgressão.
E nos autorizou uma fuga ao real pelo não_real
do

teu vestido transparente!

O teu corpo não me era nítido. Adivinhava-te
nua.
A sedução e o desejo cresciam na fronteira
do
realmente opaco e o insuficientemente oculto.
Como se esse fosse um estádio supremo dum desejo.
Uma plataforma instável entre o visível e o invisível.
Como se a ausência me arrastasse à presença além do

teu vestido transparente.


Pela transparência do teu vestido
vi o mínimo do teu
corpo - um sentido
que rasgava o real_opaco e me
permitia
soltar a imaginação e o horizonte.

E não renunciámos à nossa transgressão.
E não deixámos de violar a tua realidade.

Mantiveste a transparência do amor. Sem
o

teu vestido transparente.


Mateo
"Transparências" de Esthergilda Menicucci.

quarta-feira, 8 de Abril de 2009

palavras vintage


Não me apetece escrever. Continuo preguiçoso. Melhor!
Não sinto necessidade de te afirmar. Sinto-me saciado.
É isso. Não descubro vazios para atestar. Bastas-me!

Como se... me transbordasse o que creio possuir.
Como se... não precisasse de revelar como te quero.
Como se... não houvesse lugar a vazios por preencher.
Como se... fosse paradoxal sentir-me feliz ao confessar


quanto te amo!

e achar-me feliz de não te desvendar

quanto te amo!

Como se... nada acontecesse.
Como se... estivesses vendada.


Ainda se eu me apercebesse que me sugavas os textos?
É que as palavras ainda moram por aqui. Cá por dentro.

E eu sei que há sempre modos novos de proteger o velho

quanto te amo!

Essa a força da poesia. Com palavras de tanoeiro
preservadas entre aduelas de barricas de carvalho

e sorvidas como porto vintage com laivos de mel.

As palavras devem
Como os frutos.
Como o porto.
madurar.

Palavras vintage para momentos de preguiça.


Mateo

"Without Words" de Hamish Blakely.

quinta-feira, 2 de Abril de 2009

quando um grafema se embebe num corpo de um copo ou como beber dum copo num corpo




Copos e corpos. Palavras gémeas.
Se roçadas com o olhar. De soslaio.

um único grafema as distingue e basta tão só que a
ponta de língua se enrole nuns alvéolos para que
um copo se torne oral e vibrante e sonoro

Que se transforme um copo num corpo!
Cheers!

Derramo uma garrafa gelada de champanhe

Amarelo de reflexos esverdeados e de perlage
delicada sugere no topo da língua uma sensação
de dentadas num pêssego branco de pele fina.

dom pérignon num copo sobre teu corpo
que sobre sangue quente escorre morno
até uma fonte de musgo já húmida.
Toast!

Que se transfigure o teu corpo no meu copo.
Tchim! Tchim!

Mateo
"Cheers! I " de Pamela Gladding.

terça-feira, 24 de Março de 2009

de pé, pinheiro bravo!


amolado o cutelo
golpeio-te o tronco


do talho chagado

escorre tão lenta a resina

uma massa translúcida e pegajosa

um líquido viscoso endurecido ao ar

um bálsamo cicratizante de feridas


vitral de âmbar
pedra semi-preciosa
com aroma a pinheiro

Mateo
"Silver Pine" de Catherine Hazard.

sexta-feira, 20 de Março de 2009

dois dias de chuvas e de frio e de ventos



Chega-me um naco. Do teu tempo.

Para me releres nestas letras.

Apetece-me aconchegar-te.

Com elas.



Antedizem-nos borrascas e afins para este fim-de-semana.

Revoltam-se as palavras contra a porcaria do mau tempo.

Que vai chover. Que não se saia de casa sem uns abrigos.

Cuidado com o vento que te dobra o chapéu-de-chuva.

Que vistas calças em vez de saias. Que vai fazer frio.

Muitos ques e mais cuidados. A crise e as doenças.


Nem sabes quanto prazer me dá clamar como muito

agradável um dia assim. Ventoso. De chuviscos

molha-todos. Ou tolos? De aguaceiros.

Tão batidos contra as vidraças.

Assobiando pelas lâminas dos estores. E das frinchas.

E contra mim na saída para uma bica. Ou numa ida até
ao terraço.

Mas é tão amável um dia assim como um outro.

Aguarelado a azul. E de torrar a tua pele. Pela ilha.

Pela baía. Pelos cais. Pelas areias. Pelo mais.

Um eterno espírito de contradição? Nada terno.

Terno queria eu o teu sorriso. Com este tempo.



Quero que subas. Até ao meu sótão. Com lareira. E terraço virado a norte. Avista-se vale de canas nas margens do rio. Sol só no pino do Verão. Numa nesga duma parede. Mas se o dinheiro migalhar, vou trocar a parede sul por alpendres. Entrará o sol. E a chuva. De todo o ano. E quem eu convidar.


Neste fim-de-semana alongar-nos-emos
sobre almofadas. Atearei achas na fogueira da lareira. Vermelhos os tijolos. E a pele. Um copo de sumo de laranja e manga. Um outro bojudo. De vinho. Reserva. O sumo é refresco da garganta. O tinto para leito frio entre lábios.
Onde me embebedarei.


E dialogaremos com desenhos.

Nos vidros embaciados.

Soltos os dedos.

Vem!


Mateo
"Invitation to Wonder" de Nancy Ortenstone.

segunda-feira, 16 de Março de 2009

um dia de quase nada


Olha. Trago dois presentes. Porque hoje é um dia de nada.
Quero dizer. É um dia de um quase nada. Faz hoje um ano.

Lembras-te? Desembrulha!

O meu.

Um figo em passa. Com miolo de noz. Entalado.


O teu.
Um favo de mel. Para ser esgotado. Até ser cera.


Uma adição. De desejos


a minha solução para a juventude
eterna
a paixão permanente de uma soma
de paixões
a vontade de arrasar com o dia
de rotinas
o viver por mundos
intocáveis
a malha de um crivo

e do enamoramento
por ti!


Adourar-te-ei até me enojar ou te enjoar!


Mateo

"Birthday" de Marc Chagall.

quarta-feira, 11 de Março de 2009

concerto a solo para um homem só




O corpo. Todo. Mas, sobretudo, as mãos.

Um concerto. Teu. A solo. Num palco.
Na assistência, eu. Mais ninguém.

Dolce. Adagio. Andante ma non troppo.
O corpo. Lânguido e tenro. Dividido.
As mãos. Dóceis. Em círculo.

Andante. Vivace. Presto. Fortissimo.
Os músculos tensos. As pernas em pontas.
Os dedos hirtos. E fundos. Para acorde final.

Aplausos de sorrisos e ares de cansaços.
_____

Gostaste?
Muito. De novo?
Sim. Após o descanso.
Acendo-te um cigarro.


Mateo

"Terra cotta sculpture of a reclining woman", 1927.
Max Laeuger.

sexta-feira, 6 de Março de 2009

de um tempo que é templo


Não te escrevo sobre um tempo qualquer.

Não da chuva nem do frio. Nem dum quaternário em compassos.
Nem das horas. AM ou PM. Nem do tempo perdido. Nem do gasto.

Escrevo de um tempo que é templo.

De um tempo que tem na pele o limite. Aquele tempo em que
não pensas.
Naquele em que não sentes desejos. Nem desejo
de desejos. Em que o
túnel é escuro de tanto breu. Sem luz.
Nem ao fundo. Um vazio de vazios.
De ecos surdos e roucos.
Sem receitas nem remédios. O tempo de dormir
muito.
Sempre.

Dum tempo-templo que é só teu.
E que nada terá de meu.
Nem de nosso.


Tempo.
Tempo-templo de contemplação. Tempo-templo de esperança.
Templo.


Em que a pele já não é pele. É parede.
Em que poro é pedra. Entre pedras.

Em que a luz morna entra coada.

Aguardo por ti nu.
No portal manuelino.


Mateo

"Presentation at the Temple" de Leslie Xuereb.

segunda-feira, 2 de Março de 2009

quero-te ao leme


Algema-te ao leme. Do meu barco.
E repete-me o ritmo. Dos remos.
Rege-se em
compasso binário.

Geme, leme!
Geme!
Geme, leme!
Geme!
Geme, leme!
Geme!

Quanto?
Setenta vezes sete.

Geme ao leme!
Geme!
Nos lábios a espuma.
Salgada das ondas.


Mateo

"The Man at the Helm", c.1892 - Théo van Rysselberghe.

quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

formas censuradas



Ribomba longe o batuque. Cavernoso e ritmado. Dos bombos. Circulares.
Dita a minha poder estar alheio do mundo. Redondo. Nestes dias. Gordos.
Aqui. Num sótão. Muito próximo do céu. Em cúpula. A sós. E surdo. Mudo.
Abrigado em nuvens. Arredondadas. E nas tuas formas. Muito. Tão cheias.

Agarro-me onde me fixo. Evito precipitar-me. Fixo-me onde me enfeixo.

Nos teus olhos, sobretudo. Esféricos.
Nos teus lábios. Graúdos. E tão cheios.
Nos teus seios. Bicudos. Sempre. Só meios.
Nas tuas coxas. Em cone. Sob saias à marilyn.
Nas tuas ancas. Açude. De um rio que me mina.

Evito o triângulo. Porque não é circular.
Evito outras formas. Embora redondas.
Não são da fronte. Nem da frente.
E porque te afronta. Censurado.

Mateo

"The Origin of the World", 1866, de Gustave Coubert.

sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2009

máscaras e o pão nosso de cada dia



estas máscaras desfilam aqui

Não me obrigues a mascarar-me. Mascarado vivo eu.
As máscaras de cada dia. Como o pão. O nosso. Do dia.

Ao teu silêncio, quando me magoa, chamo-lhe desprezo.
Ao amante chamam-lhe o que ama. Ou. O infiel que ama.
Ao sorriso eterno entre quem ama chamo-lhe o hu_amor.
À verdade de quem me ama chamas-lhe nu_amor.
À guerra chama-lhe o ditador um caminho para a paz.
À ternura sem eco chamo-lhe tortura.
A um intenso prazer chamou-lhe o confessor pecado e_mortal.

O amor só
é só dor.

Queres mais máscaras? Rua acima? No corso de cada dia?
Os cabeçudos vão à frente. Entre a gente. E as caraças
tapam caras. De mascarados. Por fim, o rei e a rainha.
Pim!



Por três dias.

Carne, vale!


Mateo

segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009

ser mais eu na tua posse



Vai deitar-te. Precisas de dormir. Depressa.
E muito. Amanhã é dia de acordares cedo.
Muito cedo. Vais viver muitas horas. No trânsito.
Quantas vezes já te repeti o mesmo? Vai lá.

É só mais um bocadinho. O tempo de fumar este cigarro.

Até parece que te não quero comigo. Tal a insistência.
Mas é só porque gosto de ti. Estranho este querer que
te vás para teu bem. E mal meu. Ou que fiques para meu bem.
Mas, lá no fundo, nem uma coisa nem outra eu quereria.
Nunca estou contente com o que tenho. Serão todos assim.
Como eu. Eu sei. Não é novidade. Vai deitar-te. Vai lá.

Só mais um bocadinho. O tempo de acabar o cigarro.

Seria mais feliz se eu não fosse capaz de querer mais e melhor.
Provavelmente. Não ficaria insatisfeito. Bastar-me-ia a mim próprio.
Não precisava de te ter mais. Mas, querer-te mais e melhor
é como
desejar algo que me complete.

Como se ao possuir-te eu fosse mais ser.

Só mais um bocadinho. Acabei de fumar há tão pouco tempo.

Filosofices minhas a uma hora destas. Deixa-me entrar.
Adormeceríamos. Precisamos de dormir. Depressa. E muito.
Amanhã seria dia de acordarmos cedo.
Muito cedo.
Para podermos viver muitas horas. No trânsito.

_

Só mais um bocadinho.
Depois vamos tomar o pequeno-almoço.
O fim-de-semana continua hoje.
Segunda-feira.

Mateo
"Sleeping Woman" de Pablo Picasso.

quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009

beijos de sabores


foi naquele bar frente ao mar
uma bica pequena cremosa morena sem açúcar
amarga
um quadrado de chocolate quase cacau
amargo

Prova! Sorve! Saboreia!
Que tal?

O amargo é delicioso!

beijei teus lábios
amargos


foi na estrada para o cabo
uma azeda na berma do caminho
caule verde fino sob pétalas amarelas
azedo
duas camarinhas pérolas leitosas do mato
azedas

Prova! Sorve! Saboreia!
Que tal?

O azedo é delicioso!

beijei teus lábios
azedos


foi na serra nua junto ao convento
neste caule mais grosso de seiva láctea
acre e doce

Prova! Sorve! Saboreia!
Que tal?

O agridoce é delicioso!

beijei teus lábios
agridoces


foi já em casa
na bolacha-cone duas bolas de sorvete de baunilha
um fio de natas quentes derretidas
um semi-frio
todo doce

Prova! Sorve! Saboreia!
Que tal?

Não é semi-frio!
É suculento e semi-quente!

beijei teus lábios

muito

Mateo

"The Kiss 4" - Homage to Auguste Rodin de Ina Mar (Mariana Varouta).

sábado, 7 de Fevereiro de 2009

num lugar chamado de dentro



Se te entreabrires irei imergir.

Dentro. Bem dentro. Bem no fundo.
Até onde não mais me seja possível.

Ensopa-me!

E desse fundo. Bem do fundo. Tão de dentro
saborearei se o mundo que nos rodeia é azul.
Ou negro.

Se negro, adormeço.
Se azul, amadureço.

Abre os olhos. Não os cerres.
Deixa-os entreabertos.
Pelo menos.
E sorri.


Mateo
"A Pearl Inside" de Marlene Healey.

terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

palavras húmidas



Que dias tão cheios de água! E de frio!
Recordas-te das bilhas de barro? Das nossas avós.
E da água fresquinha? Dominasse eu o poder e estes dias
teriam maior morada numa parte dos dias de muito calor.
E de humidade.
Esta minha ambição de reter o sol na eira. E a chuva no nabal.
Coisas!

Estive a contar as mensagens trocadas. Noite adentro.
Quantas. Tantas. Muitas. Famintas. Sedentas. Sôfregas.
E não respondi à última porque a senti húmida. Molhada.
E porque me adentravas.
Coisas. Loucas!

Numa noite ou numa tarde destas, de chuva e de frio,
podíamo-nos cobrir com uma manta virtual
e quentinha.
E fazer soar e suar. Como o calor húmido
que nos sufoca.
E nos cola à pele.
Coisas loucas. De um doido!

Os planos e as expectativas perturbam-me quando
me meço no tempo. Pela frente, já me faltam dias.
Não sofro na espera quando quero a descoberta.
Mas neste hoje não há muito lugar a amanhãs.
Coisas loucas de um doido. Adivinho!

Eu sou especial? Nem penses nisso. Adão de carne e ossos.
E algures uma alma. Que ama. Que sente. E se ressente.
Coisas loucas de um doido adivinho. De sensações!

A tua e a minha vontade. As duas.
Mas da minha sei eu. E tu também.
Coisas loucas de um doido adivinho de sensações. E de desejos!


Que dia tão cheio de humidade!
Não foi assim toda esta noite?
Tão molhada e tão húmida?


Mateo